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15/12/09

SÃO VITO WANNABE

Meu prédio foi projetado para ser um cortiço. Mas, para azar do arquiteto, Moema resplandeceu em meio ao milagre imobiliário e temos aqui, encravado no seio da Zona Sul, um edifício elegante com alma de favela. 

Capítulo de Hoje: O Vazamento

Nosso querido edifício se esforça tanto para se transformar no São Vito que vem alcançando resultados admiráveis. Por exemplo: recentemente tivemos um vazamento. Um vazamento comum em outros prédios mas que, aqui, virou favela.

Em primeiro lugar, como já foi falado aqui, nosso zelador é gago. Agora você imagina ele tendo que avisar, um a um, os moradores do décimo segundo andar até o vigésimo, que uma das paredes seria quebrada sem dó nem piedade. Demorou dias.

Depois dessa missão hercúlea, um comitê formado por um encanador, seus assistentes, o zelador, um faxineiro-vigília para ficar acompanhando e contar tudo pro zelador depois e um pedreiro invadiu cada uma das unidades com problema.

Efeito 1: duas semanas de marretas, picaretas, martelos e serras elétricas full time.

Efeito 2: pó. Muito pó.

Cada apartamento foi quebrado de modo que a integração com seu vizinho era inevitável: um buraco na parede em comum, de um lado a sala do final 7, de outro a cozinha do final 5. E em volta o zelador, o faxineiro, o encanador, seus assistentes e o pedreiro, ao mesmo tempo, martelando, batendo, serrando, furando, marretando e berrando. Muito.

A gente chegava no prédio e ouvia berros e batidas. Gritos e barulhos. Um clima de resgate de sobreviventes pós-desabamento.

Depois chegava em casa e lá estava: o buraco. E a cozinha/sala do seu vizinho à vista. Em uma noite, minha sala ficou com um fog de fritura, porque, do outro lado do saco plástico que cobria o buraco-do-tamanho-de-uma-portinha, estava sendo feito o jantar. Quase pedi pra me passarem um bolinho pela abertura.

Depois de feito o quebra-quebra é hora de tapar e pintar. E em participação especial o pintor olhava pra sua parede com uma expressão de profunda infelicidade. Em meio a um longo suspiro, ele falava, pesaroso: "ah, aqui é assim?". Eu não sei aí, mas aqui é assim. Uma parede pintada. Depois de explicar que o motivo do horror é a textura que faz parte da decoração, descobriu que era a coisa mais fácil do mundo de reproduzir: massa corrida e uma vassoura fazem o trabalho.

A cara infeliz não foi embora. Perguntou sobre a cor. Que é branco. Zelador, encanador e pintor entraram em uma enorme discussão sobre que cor era aquela. Que é branco. Nenhum pôde considerar que o branco era branco. Mas era. E depois, recebi congratulações por ter acertado que cor era aquela. Que eu escolhi. E que era b-r-a-n-c-o.

Mas Deus não fica feliz quando aqui no São Vito Wannabe tudo está caminhando para uma rápida conclusão. E, com um raio de poder divinal, antes que as obras terminassem, ele explodiu um cano lá do outro bloco. Mas não só isso, ele fez cair um pedaço do teto lá do hall do elevador do térreo.

No dia seguinte, a gente escutava os berros e a quebração e, como em uma ação de experiential marketing, podia também ver uma instalação com o tema "a favela é aqui", composta por plásticos pretos, daqueles de saco de lixo, bem fedidos, estendidos como uma tenda árabe do teto do térreo, com plásticos-bolha em volta, no chão.

Como estão terminando de arrumar a favela lá de baixo, estamos aguardando os designios do Senhor em apontar onde será o próximo cano a explodir. Nada diz mais Natal do que uma obra no encanamento batendo marreta na sua orelha logo de manhã cedinho.

Você também precisa conviver com marretação natalina? Consulte a Pequena Buda e torne sua vida menos barulhenta.

CARLÃO PRECISA EMAGRECER

Acompanhe Carlão passo a passo na conquista de um corpo apolíneo. Entradas semanais com cardápios para você copiar e considerações motivacionais para você se inspirar.

Episódio de hoje: A Dieta do Alfabeto

Olá, queridos e saudáveis leitores, hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas! Vamos começar, juntos, unidos, a Dieta do Alfabeto. Na semana passada vocês me acompanharam iniciando a revolucionária Dieta do Rei, mas na verdade ela não funciona. Em uma semana, ganhei 5 quilos. Conclusão do experimento: a dieta é ruim. Mas a do alfabeto é tiro e queda. Preparado?

A Dieta do Alfabeto funciona assim: no primeiro dia, você só pode comer alimentos começados com A. No segundo dia, somente alimentos começados com B. E assim vai, por 23 dias, cada dia uma letra, cada letra um quilo perdido.

Café da Manhã

Para iniciar o dia com energia e poucas calorias, reuni em minha mesa alguns alimentos que tenham o nome começado pela letra A, essa simpática e magrela letra, e que ela sirva de exemplo antes de aparecer a barriguda e papuda B: primeiro as frutas, afinal de contas, estamos de dieta e não queremos exagerar e computar um monte de calorias já de cara em nosso primeiro dia. Começo com um abacate. Agora, abacate a gente tem que bater com leite e açúcar. O açúcar começa com A, então pode, mas o leite só pode no dia do L, como faço? Bom, amassei o abacate e coloquei açúcar por cima, já me sentindo mais leve e magrinho. Nada como a disciplina, não?

Café-da-manhã sem algum tipo de cereal não é café-da-manhã. A gente fica fraco e sem energia para nosso dia. Então, misturei uma fruta com granola: açaí. Fiz uma tigela cheia de açaí com bastante granola. A-há! Estão achando que furei a dieta já de manhã, não é? Mas a granola, que começa com G, na verdade é All-Bran e All-Bran começa com A. Então pode.

Também fiz um suco de abacaxi, bem light, usando todo o abacaxi, porque todo mundo sabe que o abacaxi estraga logo, tem que aproveitar. E coloquei açúcar, que tá liberado. E aveia, pra dar uma encorpada.

E aí pensei: as pessoas, em lugares estranhos do mundo, comem carne no café-da-manhã, certo? Então julguei que não vá fazer mal eu comer as almôndegas que sobraram de ontem e estão aqui na geladeira praticamente implorando para serem comidas. Elas começam com A, vão estragar em 23 dias, achei que eu devia isso ao ecossistema. E as comi.

Para não ficar com défict de açúcar, tomei bastante achocolatado, e depois comi algumas ameixas com aveia (tudo com A) e tomei um litro de água de coco, que todo mundo sabe é saudável e ajuda a emagrecer.

Almoço

Depois de um café-da-manhã tão light, aconteceu o que eu temia: no almoço eu estava com uma certa fominha. Mas, minha gente magra, eu sou disciplinado. E com disciplina me mantive na letra A. Estou orgulhoso de mim.

Comecei com um peixinho, que tem bem pouca caloria: atum. Bom, eu comi no restaurante e não vou ficar pedindo pra mudarem os pratos no restaurante, todo mundo sabe que o garçon cospe no prato antes de servir. Como cuspe é com C e hoje é o dia de alimentos com A, não alterei o prato e comi atum... aos quatro queijos. Mas tinha alecrim, o que, imagino, compense tudo.

Para acompanhar, arroz. Nunca tinha pensado em quantos tipos de comida existem com a letra A. E como só vou poder comer arroz daqui 23 dias, pedi arroz à grega, arroz de carreteiro e arroz integral, que é saudável, afinal estou de dieta.

Depois comi arenque com bastante azeite. Aliás, amigo em dieta, como azeite começa com A, abuse. Aproveite e coloque azeite em tudo!

Ainda com fome, mas sem querer furar a dieta, comi truta. Mas o nome do prato era A Melhor Truta da Cidade, portanto começa com A, portanto está liberado. Fora que o molho da truta era de amêndoas. E amêndoa começa com que letra? Isso mesmo, com A.

O bom de um restaurante por quilo é que tem comidas de todos os tipos e, quando fui pegar mais peixe light e saudável, me deparei com... acarajés. Ora, se está escrito que é qualquer coisa com A, Acarajé pode. Como a baiana estava com 23 acarajés prontos, peguei 15, afinal isso aqui é uma dieta. Coloquei azeite em todos e, assim, tive um almoço delicioso e que não me fez furar o regime.


Lanche da Tarde

Eu deveria ter pego os 23 acarajés, porque lá pras 16h, fiquei com muita fome. Ainda bem que tenho vários produtos de baixa caloria em minha gaveta no trabalho. Comi então, já que hoje é o dia do A, um pacote de biscoito Água e Sal. Nesse caso, como me parece claro, vale o A da Água e não o B dos biscoito. Primeiro porque ninguém sabe se é biscoito ou bolacha. E segundo biscoito é o quê? Todos eles? Se estou especificando que é o Água e Sal, vale o A. Qualquer endocrinologista concordaria comigo.

Jantar

Como sabemos, dieta é dieta e temos que ser disciplinados. Por isso, fiz uma grande salada, para que meu estômago fique feliz com coisas sem caloria nenhuma. Alface, acelga, agrião e abobrinha.

Coloquei tudo em uma saladeira, com bastante azeite. E alho. E aliche e amendoim, que não combinam, mas tinha aqui na geladeira e começam com A.

Outra coisa que achei na geladeira e que começa com A foram 3 alcachofras. Mas alcachofra a gente come com carne moída e aí fiquei na dúvida, porque carne moída começa com C. Mas aí pensei: carne vem de onde? Da vaca, não é? Agora suponha que o nome da vaca que foi moída seja, não sei, Arminda. Nesse caso, posso comer a carne moída da Arminda no dia que começa com A? Acho que sim. Faz todo sentido. Então lá se foram as alcachofras. Coloquei umas avelãs também, porque começam com A e, sinceramente, eu estou me sentindo um pouco anêmico. Começo de dieta não é fácil. Aproveitei e fiz a carne moída também à parte para comer em pastéis que fritei enquanto esperava as alcachofras ficarem no ponto.

Nesse momento, pensei que a carne moída da Arminda poderia ser alcatra. E alcatra começa com A. Viram? Quando a gente está em sintonia com a dieta, tudo se encaixa e tudo dá certo. Ficarei magro em pouco tempo, não vejo a hora.

Fiquei com a impressão que jantei pouco, mas caprichei na sobremesa. Não quero ficar com hipoglicemia e passando mal durante a noite de fraqueza. Comi doce de Abóbora com coco (eu sei que só a abóbora começa com A, mas quem come doce de abóbora sem coco? É quase um crime), ambrosia e arroz-doce.

Uma delícia essa dieta. E acabei de perceber que poderei comer bomba de chocolate em dois dias, no B, de Bomba, e no E, de Éclair. Hmmmm... É gostoso emagrecer.

Sua vida anda light de acontecimentos e você padece de um vazio existencial não apenas no estômago? Consulte a Pequena Buda e alimente-se de luz.

A ATENDENTE CARENTE

- Alôoooo?

- Boa tarde. A senhora Lucíola, por gentileza?

- Quem gostariaaaaaaa?

- Aqui é Irene, representante do Serviço Personalizado de Atendimento ao Consumidor Inadimplente do Banco Economia do Estado de Minas Gerais, senhora.

-  Dona Irene, a senhora precisa ajudar!

- O que está acontecendo? É uma emergência? Quer que eu ligue pro Resgate?

- Não, dona Irene, a senhora precisa ajudar as criancinhas necessitadas neste Natal.

- Oi?

- Elas passam necessidade, não ganham presente, a senhora não acha uma judiação?

- Eu acho, mas eu liguei para fazer uma cobrança e...

- Dona Irene! O que é mais importante do que as criancinhas?

- Meu emprego. Então, dona Lucíola, a senhora está devend...

- Eu não sou a Lucíola.

- Ah. Bom, então pode chamá-la?

- ... eu sou Mamãe Noel.

- Ai.

- E como Mamãe Noel, peço a você, dona Irene, uma contribuição para o Natal das pobre criancinhas carentes e necessitadas.

- Mas eu tenho que fazer uma cobrança, a senhora pode ch...

- AS CRIANCINHAS ESTÃO PASSANDO NECESSIDADE E VOCÊ QUER FAZER COBRANÇA? VOCÊ NÃO TEM CORAÇÃO?

- E mais um pouco não vou ter emprego... por favor, dona Lucíola, eu...

- Eu não sou a Lucíola. Eu sou...

- ... a Mamãe Noel, entendi. Dona Mamãe, a senhora está com uma dívida aqui cujo venc...

- CRIANCINHAS!

- MEU EMPREGO!

- Onde está seu espírito natalino?

- Tá aqui, junto com a sua dívida, que está vencendo e...

- Está escrito aí que Mamãe Noel está devendo?

- Não, está escrito Lucíola Oliv...

- Viu? Você ligou errado. Aqui mora Mamãe Noel.

- Mamãe Noel: a senhora é tão bondosa e dedicada ao bem do nosso planeta, poderia fazer uma doação?

- Pra quem?

- Para o Banco Economia do Estado de Minas Gerais. No exato valor de...

- Não.

- Não?

- Não. Mamãe Noel não doa dinheiro a bancos, só a criancinhas. Boa tarde.

- Espera, olh...

CLIC

- Bom, eu tentei...


Dúvidas existenciais? Pergunte à Pequena Buda.

07/12/09

CARLÃO PRECISA EMAGRECER

Acompanhe Carlão passo a passo na conquista de um corpo apolíneo. Entradas semanais com cardápios para você copiar e considerações motivacionais para você se inspirar.

Episódio de hoje: A Dieta do Rei

Olá, queridos e saudáveis leitores, hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas! Vamos começar aquela que será a dieta definitiva, que mudará nosso corpo, que nos deixará irreconhecíveis, magros, cadavéricos, semi-anoréxicos: a Dieta do Rei.

Essa dieta se baseia em um ensinamento passado de geração pra geração, que consiste em obedecer o seguinte:
- Tome um café-da-manhã de Rei;
- Tenha um almoço de Príncipe;
- Jante como um plebeu.

Muito simples, não? Como você gasta muita energia durante o dia, você come mais de manhã. Como você dorme à noite e fica lá paradão, você come menos no jantar. Inteligentíssimo. Vamos ao que anotei durante o dia:

Café-da-manhã de Rei

Comi como um Rei. Fingi que estava em um resort 5 estrelas e mandei ver. Ora, tenho o dia todo pela frente para queimar todas essas calorias. E fora que, se a gente não come direito no café, enfia o pé na jaca no almoço, não é mesmo?

Comecei com frutas, essas nossas amigas tão fresquinhas e coloridas. Comi um mamão. Não um mamão papaya, porque eu acho que mamão papaya não dá pra nada, é aquela frutinha micro, parece o pônei das frutas, não dá, preciso me alimentar como um Rei e duvido que rei coma um treco chamado papaya. Depois comi melão. Meio melão, porque está calor e melões têm bastante água, o que faz bem, hidrata e rejuvenesce. Em seguida, comi uma fatia de melancia. Mas fina, porque estou de dieta. Cortei de uma ponta a outra uma fatia de 5 cm, porque, ora, todo mundo sabe que melancia é praticamente água e não engorda.

Depois das frutas, comi cereais, porque fibras são essenciais a nosso organismo. Comi Sucrilhos açucarados, porque pensei o seguinte: um Rei, cara, ele come o que quer. E alguém já viu um Rei desmaiar de hipoglicemia? Não! Ninguém nunca viu, sei lá, a Princesa Diana se casando e o pai do noivo, tuc, caindo duro no altar porque não tinha comido bem no café-da-manhã. E coloquei leite integral porque o café-da-manhã é de rei e rá rá rá que rei toma leite desnatado, que é aquela água suja de branco, né? faz favor! Coloquei umas 3 colheres de Nescau no leite, porque não gosto de leite e, se eu fosse rei, tomaria Nescau o dia todo.

Daí pensei o seguinte: não tem rei no Brasil, né? Só tem rei lá fora. E lá fora o pessoal come o quê no café-da-manhã? Bacon e ovos. Pode ver, em tudo quanto é filme os caras comem bacon e ovos. Em resort 5 estrelas tem metade da mesa cheia de bacon fritando tshhhhhhhhh. Hmmmm. Bom, então caprichei no pratão de omelete com bacon. Ora, é tudo uma questão de lógica, não é verdade? Fora que, se eu tenho que caprichar no café-da-manhã e maneirar no almoço, já como o almoço agora, não é? E outra coisa que gringo toma no café-da-manhã é suco de laranja, então tomei um litrinho só, porque tô de dieta. E porque ajuda o bacon a descer.

Falando em gringo, me veio à cabeça pão francês com salaminho italiano, então fiz dois sanduichinhos de salame mas, como tô de dieta, só comi um, o outro eu levei pra comer no trabalho, durante a manhã, porque todos os nutricionistas dizem que a gente não pode ficar mais de 3 horas sem comer, não é mesmo? E já que é pra sofrer fazendo dieta, vou fazer direitinho. Então, lá pras 10h30, comi meu pãozinho francês com salaminho, pra não ficar com o estômago vazio.

Almoço de Príncipe

Nada como um café-da-manhã frugal pra gente sentir aquela fominha na hora do almoço. Então vamos ao almoço de Príncipe. Bom, fui com meus colegas de trabalho no quilinho que tem aqui em frente ao escritório. Não contei a ninguém que estou de dieta, porque quero que me elogiem por minha boa forma quando realmente começar a dar pra ver que minhas roupas estão sobrando na cintura. Não vejo o dia disso acontecer. Enquanto espero, peguei meu prato e me dirigi ao lado do balcão com as saladas. É possível comer bem só comendo coisas verdinhas e saudáveis. Comecei colocando bastante alface em meu prato. Depois acelga, rúcula e pus um pouquinho de couve também. E mini cenouras. E coloquei um molho de maionese por cima, porque, sinceramente, quem consegue comer salada sem tempero? Certamente não um príncipe. Príncipe, quando vem pro Brasil, por exemplo, você acha que ele vai no Fasano e come salada sem molho?

Bom, pensando no que um príncipe faz quando vem pro Brasil, lembrei que ele dança com passistas de escola de samba e come feijoada. Fiquei feliz em ver que minha mente já está se reeducando na hora de comer, porque, antes mesmo de eu pensar tudo isso, vejam! Eu já tinha colocado um pouco de couve no meu prato! Uhu! Então coloquei também arroz, feijão preto e tudo o que foi parte de porco que eu pude encontrar nas travessas. Bacon também, porque príncipe é gringo e já discutimos isso pela manhã. Torresminho, porque ninguém se atreveria a servir uma feijoada a um príncipe gringo sem torresminho, seria uma quebra de protocolo, sabia?

Coloquei bastante farofa ao lado, porque ainda dava pra ver a alface saindo por debaixo da feijoada e não estava combinando. Se ainda desse pra ver a couve, bacana, mas a alface não tava ornando. E também peguei umas bistequinhas de porco, porque porco é carne, carne é proteína e, quando a gente faz dieta, se não prestar atenção fica anêmico.

Agora, imagina um príncipe gringo que veio pro Brasil, encontrou o Lula, tirou fotos com o elenco do BBB, foi flagrado pela Contigo dando esmola pra um menininho sem teto, dançou samba com a Pinah e depois foi fechar a manhã em um quilinho. Esse cara ia deixar passar um pastelzinho? Não ia! E mandioca frita? E bolinha de queijo? Cara, se é pra almoçar como um Príncipe, almoça como um príncipe, não deixa por menos.

Bom, depois de almoçar esse prato bem equilibrado, contendo itens de todos os andares da pirâmide alimentar, comi sobremesa, porque, quando estamos de dieta, se não prestarmos atenção, acabamos ficando com hipoglicemia. Então fui no balcão dos doces e peguei uma colherada de cada, porque todas as opções eram doces típicos brasileiros e um príncipe gringo, tenho certeza, jamais sairia desse restaurante sem ter tido que provar todos eles, você acha que a dona do quilinho permitiria? Ela que faz cada doce, seria até falta de educação do príncipe.


Jantar de Plebeu

Bom, queria dizer que, ao final do dia, eu já estava me sentindo mais disposto, mais leve e mais saudável, pronto para um jantar comedido, simples, enxuto, mínimo. Vamos a ele:

Essa dieta é muito fácil da gente decidir o cardápio, basta a gente entrar no personagem, como fiz nas outras duas refeições. Por exemplo: como um plebeu come? O que ele come? O Plebeu trabalhou o dia inteiro em alguma atividade braçal. Foi andando pro local de trabalho, voltou andando, no meio dos cavalos, dos guardas do castelo cobrando pedágio, não era fácil a vida dos caras. Então eles chegavam acabados em casa. E eram pobres, ainda por cima. Pobres que mal dava pra comprar comida.

E como você faz pra matar a fome de um cara que se esfolou o dia todo sem grana pra ir no supermercado (ou sei lá onde que eles vão comprar comida nos reinos distantes)? Carboidrato, minha gente. Muito carboidrato.

Então comecei com uma macarronada a bolonhesa, porque carne moída é proteína e já discutimos isso na hora do almoço.

Coloquei a água pra ferver, com sal e um fiozinho de óleo, bem fininho, porque estou de dieta. Enquando a água esquentava, abri uma cerveja e fui tomando, porque os plebeus chegam em casa e a mulher deles leva uma cerveja pra eles irem relaxando, enquanto o jantar fica pronto; tá em qualquer livro de história, se você quiser conferir.

Só que até o mais miserável dos plebeus toma cerveja com aperitivo, né? Senão o cara não é plebeu, é mendigo. Então peguei umas azeitoninhas, umas torradinhas com azeite, uns quadradinhos de queijo temperados e fui comendo, só pra esquentar o estômago. Quando a gente tá de dieta, o estômago fica com aquela sensação de vazio, é bom dar uma beliscadinha de vez em quando, senão, quando você for comer, capaz até de passar mal.

Mas meu Deus a água do macarrão demora demais da conta pra ferver, então eu fiz um sanduichinho, pra acompanhar a cerveja, porque aqueles aperitivos não deram pra nada, na sexta cerveja já tinha tudo terminado. Fiz um sanduichinho básico, com pão integral diet, requeijão light, queijinho branco, peito de peru defumado, molho tártaro e bacon, que, convenhamos, fica pronto bem mais rápido que macarrão, foi só esquentar uma frigideira e pronto. Tshhhhhhh.

Aliás, é tão rápido que fiz mais bacon, enquanto coloquei uns hambúrgueres no grill George Foreman. Comi X-Bacon diet (o queijo era branco) com maionese light e, assim, consegui esperar o macarrão ficar pronto sem muita ansiedade.

Enquanto o macarrão fervia na panela, preparei o molho bolonhesa e coloquei nele o restante do pacote com meio quilo de bacon que acabei abrindo, porque não é porque estou de dieta que vou deixar estragar comida. Nenhum plebeu nesse mundo faria isso, os caras sabem o valor do dinheiro.

Espero que esse meu primeiro dia de dieta sirva como inspiração a você, que quer se aventurar na Dieta do Rei. Eu recomendo. terminei o dia disposto, alegre e o melhor: sem fome!

Segunda que vem darei mais notícias de como vai indo minha dieta.

Sua vida anda light de acontecimentos e você padece de um vazio existencial não apenas no estômago? Consulte a Pequena Buda e alimente-se de luz.

06/12/09

SÃO VITO WANNABE

Meu prédio foi projetado para ser um cortiço. Mas, para azar do arquiteto, Moema resplandeceu em meio ao milagre imobiliário e temos aqui, encravado no seio da Zona Sul, um edifício elegante com alma de favela. 

Capítulo de Hoje: O Fenômeno

O São Vito Wannabe é uma grande atração aqui em Moema. Tem uma legião de fãs que olham como se estivessem hipnotizados em direção a nossos lares. Ok, as duas últimas vezes que isso aconteceu foi quando um suicida cenográfico tentou se jogar para os seus 15 minutos de fama e essa que vou contar agora, mas sonhar não custa nada. Ora.

Pois bem. Seis da manhã. Uma alegre brisa matinal envolve os madrugadores moradores de nosso portentoso edifício. Alguns de saída para a revigorante caminhada diária. Outros regando suas bucólicas plantinhas e cuidando de seus pets antes de partir para mais uma jornada da labuta diária. Os funcionários do prédio trabalhando sem saber o que estava por acontecer. Os vizinhos passando pela calçada pensando em suas vidas. Quando...

Um furdunço.

Uma pessoa chega ao térreo, passa o primeiro portão interno em direção à rua, mas não sai do prédio. Ao invés disso, começa a gritar. Não só a gritar, como a girar feito a Mulher Maravilha quando quer se transformar em heroína. E gira e grita e grita e gira e só não baixou a pomba-gira porque esse é um edifício fino.

O porteiro e o faxineiro ficaram com medo e se fecharam do outro lado do portão interno. As pessoas na calçada pararam pra ver. Quem estava nas sacadas parou pra ver, ouvir e dar passagem. E quem não estava, saiu, porque a criatura estava descontrolada. Furiosa. Ameaçando quebrar tudo, não só o silêncio.

O interessante era a figura: botas de paquita, echarpe (ou estola, há controvérsias), microssaia, blusinha e um gogó.

O drama: ela/ele veio até nosso lindo prédio-favela, trazida por um morador que se encantou com seu... gogó... vamos dizer gogó, e foi dispensada sem ter seus serviços devidamente pagos. Um vizinho tarado e caloteiro. A cara do São Vito Wannabe.

Como ela saiu do apartamento do cidadão e chegou até o primeiro portão para, só aí, resolver quebrar tudo, não sabemos. Se a Roberta Close genérica foi paga ou não, jamais saberemos.

O fato é que, logo ao nascer de mais um dia nesta comunidade fantástica, encravada no elegante bairro de Moema, às margens do Parque Ibirapuera, descobrimos que somos vizinhos do Ronaldo.

Esse prédio é um fenômeno. E não poderia ser diferente, afinal estamos colados ao prédio da Santé, bem pertinho pra fazer curativo de lipoaspiração anti-barrigão.


Você também precisa conviver com vizinhos tarados e caloteiros? Consulte a Pequena Buda e torne sua vida menos barulhenta.

31/10/08

PLÍNIO MARCELO, O CRÍTICO DE CINEMA DESCONTROL

Nosso colunista de cinema traz a você todos os mais emocionantes detalhes dos melhores filmes de todos os tempos. Seu senso de observação é tão à flor da pele que muita gente, depois de ler uma crítica de Plínio, desiste de assistir à película ao vivo. Os motivos são ambíguos.

Olá, cinéfilo leitor. Esta semana fui assistir ao emocionante Fatal. Prepare-se para uma viagem aos mais recônditos âmagos essenciais deste filme:

Assim que as luzes se apagaram e a primeira tomada de cena encheu a grande tela do cinema, meu coração palpitou: a pessoa sentada atrás de mim havia trazido um saquinho de balas feito de celofane. Pois bem, e eu ali, tentando entrar no clima do filme e aquele farfalhar de celofane atrás da minha orelha me enlouquecendo. Imagino que eram balas coloridas e o cidadão ficava pescando as vermelhinhas, porque é impossível que algum ser possuidor de polegares opositores faça tanto barulho pra pegar uma nhaca de uma balinha.

Penelope Cruz apareceu com sua franjinha e eu logo pensei: "mas, meu Deus, como esse cara é chato". Porque depois que ele conseguia pescar a balinha vermelha do fundo do maldito saquinho, começava a chupação descontrolada. Era uma barulheira de bala batendo nos dentes, de boca chupando a babinha que já ia escapando e, no final, mastigação aflitiva, com direito a legítimos "nhoc nhocs". Acabado o chupa-mastiga, lá ia ele em busca de mais uma balinha vermelha.

O filme é muito bonito. Quer dizer, pelo menos o lado direito dele. Porque um Shrek cover se sentou à minha frente, tampando toda a minha visão da metade esquerda da tela. Você olha pro filme, acha que a mocinha está solitária, aí o sujeito sentado à sua frente se abaixa e você vê que não, o mocinho estava ao lado dela, mas atrás da cabeçorra cabeluda dele.

Quando achei que, finalmente, o romance tinha tomado conta do roteiro deste filme tão bem recebido em todo o mundo cinéfilo, fui surpreendido por uma reviravolta: o Shrek cover começou a comer balinhas em um saquinho de celofane! Acho que alguma loja ao lado estava fazendo uma imperdível liquidação de balinhas e só tinha papel-celofane para embalar as malditinhas. Para meu espanto, o cidadão sentado atrás de mim começou a fazer uma bolinha com o papel-celofane dele, compondo uma trilha sonora especial para o filme. Era o shok-shok da bolinha sendo amassada, ao lado do nhoc-nhoc-chupa-chupa-pesca-pesca do Shrek em frente.

O fim do filme foi bastante emocionante e libertador, porque pude finalmente levantar e ocupar uma cadeira ao lado, conseguindo, assim, ver o lado esquerdo da tela. Isso mudou completamente minha percepção da direção de arte e da fotografia daquela película; e eu estava absorto nesses pensamentos quando o cidadão de trás passou a esticar o saquinho de celofane e, em seguida, transformá-lo novamente em uma bolinha, repetidas vezes neste processo cada vez mais enlouquecedor.

Foi quando eu percebi que tinha mudado para uma cadeira cheia de chicletes colados por todos os lados. Era chiclete no braço da cadeira, no assento, no local para encaixar o copo, realmente um nojo, o que me fez pensar se, ali no escuro, baratas famintas não teriam chegado até os chicletes recém colados sem que eu me desse conta.

Pensando se um bando de baratas grudadas em chicletes estariam à minha volta, comecei a ficar realmente em pânico. Na tela, o casal lacrimejava, penelope estava com os cabelos curtinhos e o clima estava pesado. O cidadão de trás e o Shrek da frente disputavam o solo de celofane. Se eu fosse uma barata eu viveria em um cinema. As pessoas levam doces e deixam tudo cair no chão. Menos, obviamente aqueles dois adoradores de balinhas vermelhas em saquinhos de celofane que eu tive o desprazer de conhecer ali. Estes pescavam t-o-d-a-s as balinhas e só deixavam o celofane para as baratas.

O pânico tomou conta de Penélope na tela por algum motivo. Enquanto ela corria para os braços de seu amado, eu corri pra fora da sala imaginando baratas grudadas em minhas mangas e em minhas calças, quase às lágrimas, até finalmente chegar à calçada e, aliviado, descobrir que grudado em mim só tinham uns 3 chicletes melequentos, um deles com o que me pareceu um dente de leite enterrado.

Foi uma experiência palpitante. Espero ter passado a você todas as emoções que percorreram meu corpo e minha mente nessas 2 horas em que Fatal enchia a tela. Até a próxima coluna.

Mande sua pergunta para a Pequena Buda e melhore o roteiro de sua pobre vidinha besta.

26/10/08

A ATENDENTE CARENTE

- Alooouaaaaaaam?

- Bom dia, por gentileza a senhora Marineide?

- Olha, tipo assim não tem Marineide aqui, saca?

- Não? Mas, senhora, esse foi o telefone de contato que ela colocou aq...

- Sei lá, ó, assim: meu nome é Mari, tá? Mari Kótz. Esse lance de Marineide, cara... SUPER brega.

- Mas... mas a senhora é a Marineide?

- Cara, tu é doida? Eu sou Mari, tá? Mari Kótz. Marineide é tipo assim um lado de mim que eu não quero assumir, tá sabendo?

- Oi?

- Oi, gata, falaí, que que manda?

- E-eu... eu... bom, dona Marin... Dona Mari, aqui é Irene, representante do Serviço Personalizado de Atendimento ao Consumidor Inadimplente do Banco Economia do Estado de Minas Gerais.

- Pô cara, legal. Acho bacana isso.

- O-obrig-gada. Dona Mari, eu prec...

- Gata, na boa: Dona Mari é péssimo. Mari e tu tá na onda. Dona Mari e tu pira um aqui, saca?

- ...

- Aloooooooaaam? Tá aí, gata?

- Sim. Sim, Don... Mari. Então, senhora, eu preciso...

- Ai, cara, só matando um! Senhora, gata? Chama de uma coisa mais trend. Eu sou blogueira, mona, sou descolada, sou moderna, eu sou quase uma web celebrity e tu vem me mandando um "dona", molenga? Um "senhora", cara? Sabe, olha, nem sei, cara, sei lá. Mesmo, de verdade.

- Dona Marineide, pelamorde...

- Não surta, gata! Não pira! Faz assim, passa um e-mail. Um scrap. Deixa um comment. Tu tem Twitter?

- Eu... o quê?

- Ai, sabe, sem condições, porque meu, assim... sei lá, tem que ter um gás aí nesse treco, olha, só tenho pra te falar que, ó: FAIL, gata.

- Feio?

- Não, FAIL, gata.

- Quem é feio?

- Esse lance aqui, molenga, tá feio pro teu lado, porque ó, vou te bater essa, mas com sinceridade, tá sacando? Eu não peguei o que tu quer, gata. E eu preciso ir nessa, falou? Então tipo assim eu fui, pode ser?

- Eu... Mas...

- Fui, gata!

CLIC

- Dona Mari? Alô... ?

Dúvidas? Pergunte à Pequena Buda.

NAPOLEÃO, O BIPOLAR

From: Tribunal Regional Eleitoral- SP
Date: 26.10.08
Subject: Pedido de Ajuda
To: Tribunal Superior Eleitoral

Caríssimos colegas do TSE, estamos tendo um problema bastante grave na capital de São Paulo e precisamos que algum tipo de intervenção seja feita antes das próximas Eleições.

Acontece que temos esquemas de segurança em todas as zonas eleitorais, a Lei Seca perdura pelo dia todo em que os eleitores devem comparecer e até hoje, desde que se iniciou o movimento democrático neste país, jamais tivemos tanta necessidade de ajuda das forças superiores. E por forças superiores nem considerem o TSE, é de Deus mesmo que estamos falando.

Um eleitor chamado Napoleão, que vota na Zona Sul da Capital, tem nos deixado loucos. Ele comparece todos os anos cedinho, com seu Título de Eleitor nas mãos, e fica no portão fazendo discursos a quem passar, aos policiais e aos mesários, falando como é importante trabalhar pela democracia. E lá ele fica, aos berros, falando e falando e, com toda sinceridade, apesar de ser chatíssimo, nunca houve problema maior.

Porém, de um tempo pra cá, este senhor começou a agarrar o braço das pessoas, impedindo-as de se afastar até que ele concluísse seu raciocínio. Um raciocínio que dá voltas e voltas, já que ele começa um novo assunto e um novo dentro deste e, tal qual Sherazade, nunca conclui. E este ano tivemos as seguintes ocorrências, devidamente registradas no B.O. anexo:

- 54% dos mesários não conseguiram estar presentes à abertura das portas. Eleitores chegavam em suas seções e não encontravam nem a urna. E as pessoas compareceram, o que elas não conseguiram foi se desvencilhar do Napoleão. Alguns choravam dizendo que, quem caiu na besteira de fazer contato visual com o tal maluco, jamais conseguiu passar da calçada. Policiais tentaram fazê-lo libertar os trabalhadores, porém também não conseguiram sair dali, esperando o cidadão concluir seu pensamento sobre a democracia (com desvios para a Lei Seca, o trânsito, a eleição no primeiro mundo, quando ele foi mesário, a história do fiscal de partido que... enfim, 1001 noites cover);

- 62% dos eleitores daqui pediram transferência, 34% justificaram seu voto porque, apesar de terem ido em tempo hábil para votar, não conseguiram passar a muvuca do portão e o medo de ser escolhido por Napoleão para ouvir sobre a diversidade de tipos de fórmica usadas nas mesas dos colégios que servem como locais de votação era quase palpável.

- o próprio senhor Napoleão não conseguiu votar, já que às 17 horas ele ainda estava discursando para o infeliz público que se aglomerava e era obrigado a ouvir sobre o tempo em que ele dobrava cédulas carbonadas e levava a urna para o ginásio do Ibirapuera.

Quando encerramos a votação, este senhor ficou irritadíssimo porque disse que nunca viu uma muvuca tão grande e, por conta disso, não tinha conseguido entrar para votar. Agrediu os responsáveis pela escola com perdigotos assassinos, quase cegando a coordenadora do TRE, e só conseguimos vencer essa dificuldade lá para as 20h, quando, calmamente, tranqüilo e sereno, Napoleão vestiu uma camisa da Seleção e rumou para o ginásio do Ibirapuera. Ninguém foi louco de perguntar pra quê, apenas corremos em várias direções em busca de nossa liberdade.

Fomos acionados por alguns vizinhos próximos à escola por causa dos decibéis emitidos pelos berros e agora toda minha equipe se recusa terminantemente a trabalhar no ano que vem, a não ser que este Napoleão seja impedido de votar ou transferido de zona. De cidade, é melhor. Na verdade, o melhor seria que ele fosse transferido para o Consulado do Brasil na Sibéria.

Aguardamos um retorno.

Gratos

Mande suas dúvidas existenciais à Pequena Buda e tenha um ano de luz e sabedoria.

12/10/08

SÃO VITO WANNABE

Meu prédio foi projetado para ser um cortiço. Mas, para azar do arquiteto, Moema resplandeceu em meio ao milagre imobiliário e temos aqui, encravado no seio da Zona Sul, um edifício elegante com alma de favela.

Capítulo de Hoje: Barulhos, Ruídos e Sons Diversos

Como todos os leitores deste blog sabem, o São Vito Wannabe é um prédio muito calmo. E, como edifício silencioso e tranqüilo que é, hoje, em especial, brinda-nos com um bônus: a missa em celebração de Nossa Senhora Aparecida.

Veja bem: aqui nas cercanias temos diversos ruídos enlouquecedores, como alarmes de carro que invadem a madrugada, lutando para se fazer audível em meio aos ônibus e caminhões que passeiam pela Avenida Ibirapuera, os grupos de manos e minas que vão a pé de sei lá onde para sei lá onde aos berros coletivos, às motos envenenadas, às sirenes de ambulâncias, carros de bombeiro, de resgate e, por Deus!, da Polícia, eventuais explosões de carros sendo convertidos a gás em um terreno baldio próximo e alarmes de imóveis. Esses são os mais bacanas, pois sempre disparam na sexta à noite, no máximo sábado de manhã, e misteriosamente param apenas na segunda durante o dia. Pergunta: pra que o alarme, se não há uma central que seja informada em caso de invasão/disparo do alarme? É pra que a gente fique sabendo que o alarme toca e contar na segunda como a bateria é de longa duração?

Também temos os cachorros abandonados temporariamente em casa enquanto os donos se ausentam - e que passam a latir non-stop... se ainda em São Paulo tivesse algum hotelzinho para pets... - e, desde mais recentemente, misteriosos pássaros completamente tomados por um jet leg de migração, porque os bichos fazem uma trilha sonora "bem-vindos ao Pantanal" durante toda a noite. E, é claro, a participação pontual das britadeiras da Sabesp, Eletropaulo e Comgás que, me parecem, quando fecham um buraco na rua deveriam colocar, no lugar de asfalto, uma porta giratória, tamanha é a necessidade de SEMPREEEE reabrir todos eles, trabalho feito noite afora para preservar o trânsito fluindo... ai, péra, vou me matar de rir e já volto.

Mas no dia 12 de outubro tudo fica... pior ainda. O São Vito Wannabe é localizado exatamente em frente à igreja de Nossa Senhora Aparecida. E hoje é o dia Dela. Portanto, o padre organiza um dia de missas em repeat. Das sete às sete acontece a missa. Acabada a primeira sessão, começa a segunda. Acabada a segunda, engata a terceira. O mesmo script, mas sem trailers no início, que é pra agilizar. Eu bem que desconfiei quando vi pipoqueiros à porta da Igreja, mas só hoje me dei conta de que é porque existem sessões, como as de cinema.

Mas nós, moradores deste glorioso edifício, não precisamos nos deslocar em meio ao populacho: aqui mesmo em nossas unidades condominiais é possível ouvir a missa. E todas as suas onze repetições. Só me resta pensar que:

- o padre deve ter gravado a missa em uma fita K-7 como as dos carros da pamonha e colocou seu speech em repeat enquanto foi ver algum jogo do Coringão;

- no ano que vem poderiam fazer a transmissão da missa on-line ou colocar um telão para que nós, aqui no prédio, possamos acompanhar as imagens - a era do rádio nos entedia;

- ou eles poderiam avisar as pessoas "ó, a missa vai ser às 10h" e, pronto, não precisa fazer esse repeat mala.

Ainda bem que o dia de Nossa Senhora Aparecida é em outubro e não em junho. Nossa agenda em neste mês está lotada, pois acompanhamos a narração de TODAS as quadrilhas de TODAS as festas juninas de Moema.

Isso sem contar os campeonatos de bicicross que tem regularmente em uma pista próxima, narrada pelo mais animado dos faladores-em-microfone e as diárias aulas na academia aqui ao lado.

Agora, com licença, vou lá pra varanda, que a aula de Dança do Ventre já está para começar, aproveitando uma pausa entre o final da missa 7, da passagem dos comboios de sirenes e antes dos mano chegar pra janta!

Você mora em um bairro barulhento e não sabe mais o que fazer para manter sua paz interior? Consulte a Pequena Buda e torne sua vida mais iluminada.

29/09/08

SIFÚ, A MENINA DO DEDO PODRE

Ai, Diário, fala sério, só pode ter uma macumba em cima de mim! Imagine que minha prima Vanderlusa voltou de Miami. Lembra a Vander, que tava morando em Miami desde julho do ano passado? Então. Ela. Descobriram que o visto dela tinha vencido em dezembro e lá foi ela pro aeroporto algemada. Mas sabe como é, o avião atrasou e conversa vai, conversa vem, a Vander ficou amigona do policial que ficou lá pra ver se a criatura entrava no avião mesmo.

E não é que o policial se apaixonou? E veio pra cá?! Ah meu Deus, o cara se destrambecou pra casa de um parente de quinto grau ali no Grajaú e tanto ficou vigiando a porta da casa da Vander que, uma semana depois, um dos vizinhos foi pagar o salário pra ele, achando que o imbecil era o segurança contratado pelo comitê de moradores.

Bom, o que ela fez pra se livrar dele? Apresentou o cara pra mim! Eu nem sabendo de nada disso, tava achando que era um amigo dela americano, sei lá. E sabe como é carência, né, Diário? Ele ali, desprezado e eu, aqui, só me dando mal... acabou que começamos a namorar.

O problema é que ele fez treinamento pra ser policial nos Estados Unidos, terra da Swat. O cara é um noiado maldito! Ficava o dia inteiro se arrastando colado nas paredes e conversando com os contatos dele da Polícia daqui pelo Nextel. O dia inteiro era esse cara gritando e apitando na minha orelha em um português sofrível... e tudo era novidade pra ele! Sabe quantas vezes eu tive que ouvir "ado ado cada um no seu quadrado" aos berros e apitos e com sotaque de maluco? O cara transava de nextel na mão. Era uma apitaiada que o síndico do meu prédio me chamou a atenção! Olha a vergonha!

Quase fiquei louca, Diário! Pra despistar o cara, eu tive que levar ele na 25 de março e sair correndo na primeira brecha. Ele deve estar lá até agora, tentando achar o caminho enquanto berra naquele nextel! Tive que mudar de prédio até! Tá bom, confesso, em parte foi pela vergonha de ser apontada como a Senhorita Apito cada vez que saía de casa, mas ele sabia meu endereço, não restou alternativa.

Eu vou matar a Vanderlusa e... não, melhor não. Vai que sou presa e fico trancada em uma cela justo onde o infeliz trabalha, sei lá. Já pensou? Presa e ouvindo apito? Ninguém merece, Diário.

Mande sua pergunta para a Pequena Buda. Sua vida será iluminada e dedo podre nenhum o atingirá.