|

21/03/08

SÃO VITO WANNABE

Meu prédio foi projetado para ser um cortiço. Mas, para azar do arquiteto, Moema resplandeceu em meio ao milagre imobiliário e temos aqui, encravado no seio da Zona Sul, um edifício elegante com alma de favela.

Capítulo de Hoje: Esse Prédio tem Ibope Alto


Como todo prédio com alma de favela, o São Vito wannabe já foi reconhecido pelo Comitê das Baixarias como edifício apto a freqüentar as páginas policiais de todo tipo de mídia popular.

Depois de brigas com a síndica, cachorros largados no hall do elevador, brigas de moradores bêbados socadores de carros na madrugada, um cocô sem origem detectada, entre as muitas outras coisas que você, que vem acompanhando esta série emocionante, tem conhecimento, agora temos um suicida em nosso prédio.

Mas não precisa fazer essa cara de dó, não. Nosso suicida é incapaz de se matar. Ele é um suicida cenográfico.

O suicida cenográfico é aquele que sobe no topo do prédio e começa a gritar "vou pular!" até que haja comoção suficiente para que ele não precise realmente pular. É aquele que liga pra um amigo que mora perto avisando que vai tomar todo um vidro de remédio e não se esquece de destrancar a porta antes.

O suicida cenográfico do São Vito wannabe tem o seguinte método: ele vai até a varandinha de seu apartamento, no momento em que o irmão e o pai estão a, no máximo, um metro dele, gritando que vai pular.

Ele grita, o pai grita, o irmão grita e nós, que apesar de morar em uma favela, temos um bloqueio cerebral qualquer que nos faz esquecer disso em um momento de stress, saímos pelas janelas, portas e varandas para encontrar... o nada. Você ouve os gritos, vai ver e... seria uma pegadinha? Pessoas na rua olham pra cima, em sua direção, será adequado eu dar um adeusinho para o povo lá embaixo? O porteiro saiu da portaria e olha para o alto. As pessoas dos prédios à nossa volta olham todas em direção ao São Vito. Mas ninguém vê nada.

Todos voltam para seus afazeres e ócios quando, não mais do que de repente: gritos. O suicida, o irmão e o pai. Será uma peça sendo ensaiada? Uma gravação assusta-ladrão, como aquelas em que um cachorro digital fica latindo quando toca a campainha? Na dúvida, já sem tentar refrear seu espírito pobre de fifi, você vai até a varanda de novo e... estão todos lá, nas mesmas posições, porteiro, vizinhos, transeuntes nas calçadas.

Que diabos?!

No dia seguinte, o suicida está no posto de sempre: em pé, do lado da portaria, perturbando o porteiro. Ou sentado no sofá ao lado do elevador.

O que aconteceu? "Ele tem p-p-po-obrema no céle-b-br-bro", me explicou o zelador-gago.

Depois de um tempo, mesmo passando a maior parte de seu dia fora do prédio, você descobre, claro como água: pobrema no célebro my ass, o cara é um desocupado maconheiro como há tantos por aí. Mas, em um prédio tão animado como o nosso, o herdeiro de woodstock tinha que partir para o flash mob individual, não é mesmo?

Então, obrigada a ele, obrigada à fauna local, aos bêbados surradores, aos abandonadores de cachorrinhos e, principalmente, ao doador anônimo do cocô encontrado nas dependências comuns do São Vito Wannabe: finalmente, figuramos na lista de pauta do novo Aqui Agora.

Ao sucesso!

Mande sua dúvida para a Pequena Buda, ilumine sua vida e concorra a um cocô encontrado no São Vito wannabe. Calma, é um cocô cenográfico, que esse blog não enfia a mão na merda.