From: Tribunal Regional Eleitoral- SPDate: 26.10.08
Subject: Pedido de Ajuda
To: Tribunal Superior Eleitoral
Caríssimos colegas do TSE, estamos tendo um problema bastante grave na capital de São Paulo e precisamos que algum tipo de intervenção seja feita antes das próximas Eleições.
Acontece que temos esquemas de segurança em todas as zonas eleitorais, a Lei Seca perdura pelo dia todo em que os eleitores devem comparecer e até hoje, desde que se iniciou o movimento democrático neste país, jamais tivemos tanta necessidade de ajuda das forças superiores. E por forças superiores nem considerem o TSE, é de Deus mesmo que estamos falando.
To: Tribunal Superior Eleitoral
Caríssimos colegas do TSE, estamos tendo um problema bastante grave na capital de São Paulo e precisamos que algum tipo de intervenção seja feita antes das próximas Eleições.
Acontece que temos esquemas de segurança em todas as zonas eleitorais, a Lei Seca perdura pelo dia todo em que os eleitores devem comparecer e até hoje, desde que se iniciou o movimento democrático neste país, jamais tivemos tanta necessidade de ajuda das forças superiores. E por forças superiores nem considerem o TSE, é de Deus mesmo que estamos falando.
Um eleitor chamado Napoleão, que vota na Zona Sul da Capital, tem nos deixado loucos. Ele comparece todos os anos cedinho, com seu Título de Eleitor nas mãos, e fica no portão fazendo discursos a quem passar, aos policiais e aos mesários, falando como é importante trabalhar pela democracia. E lá ele fica, aos berros, falando e falando e, com toda sinceridade, apesar de ser chatíssimo, nunca houve problema maior.
Porém, de um tempo pra cá, este senhor começou a agarrar o braço das pessoas, impedindo-as de se afastar até que ele concluísse seu raciocínio. Um raciocínio que dá voltas e voltas, já que ele começa um novo assunto e um novo dentro deste e, tal qual Sherazade, nunca conclui. E este ano tivemos as seguintes ocorrências, devidamente registradas no B.O. anexo:
- 54% dos mesários não conseguiram estar presentes à abertura das portas. Eleitores chegavam em suas seções e não encontravam nem a urna. E as pessoas compareceram, o que elas não conseguiram foi se desvencilhar do Napoleão. Alguns choravam dizendo que, quem caiu na besteira de fazer contato visual com o tal maluco, jamais conseguiu passar da calçada. Policiais tentaram fazê-lo libertar os trabalhadores, porém também não conseguiram sair dali, esperando o cidadão concluir seu pensamento sobre a democracia (com desvios para a Lei Seca, o trânsito, a eleição no primeiro mundo, quando ele foi mesário, a história do fiscal de partido que... enfim, 1001 noites cover);
- 62% dos eleitores daqui pediram transferência, 34% justificaram seu voto porque, apesar de terem ido em tempo hábil para votar, não conseguiram passar a muvuca do portão e o medo de ser escolhido por Napoleão para ouvir sobre a diversidade de tipos de fórmica usadas nas mesas dos colégios que servem como locais de votação era quase palpável.
- o próprio senhor Napoleão não conseguiu votar, já que às 17 horas ele ainda estava discursando para o infeliz público que se aglomerava e era obrigado a ouvir sobre o tempo em que ele dobrava cédulas carbonadas e levava a urna para o ginásio do Ibirapuera.
Quando encerramos a votação, este senhor ficou irritadíssimo porque disse que nunca viu uma muvuca tão grande e, por conta disso, não tinha conseguido entrar para votar. Agrediu os responsáveis pela escola com perdigotos assassinos, quase cegando a coordenadora do TRE, e só conseguimos vencer essa dificuldade lá para as 20h, quando, calmamente, tranqüilo e sereno, Napoleão vestiu uma camisa da Seleção e rumou para o ginásio do Ibirapuera. Ninguém foi louco de perguntar pra quê, apenas corremos em várias direções em busca de nossa liberdade.
Fomos acionados por alguns vizinhos próximos à escola por causa dos decibéis emitidos pelos berros e agora toda minha equipe se recusa terminantemente a trabalhar no ano que vem, a não ser que este Napoleão seja impedido de votar ou transferido de zona. De cidade, é melhor. Na verdade, o melhor seria que ele fosse transferido para o Consulado do Brasil na Sibéria.
Aguardamos um retorno.
Gratos
Mande suas dúvidas existenciais à Pequena Buda e tenha um ano de luz e sabedoria.