|

15/12/09

SÃO VITO WANNABE

Meu prédio foi projetado para ser um cortiço. Mas, para azar do arquiteto, Moema resplandeceu em meio ao milagre imobiliário e temos aqui, encravado no seio da Zona Sul, um edifício elegante com alma de favela. 

Capítulo de Hoje: O Vazamento

Nosso querido edifício se esforça tanto para se transformar no São Vito que vem alcançando resultados admiráveis. Por exemplo: recentemente tivemos um vazamento. Um vazamento comum em outros prédios mas que, aqui, virou favela.

Em primeiro lugar, como já foi falado aqui, nosso zelador é gago. Agora você imagina ele tendo que avisar, um a um, os moradores do décimo segundo andar até o vigésimo, que uma das paredes seria quebrada sem dó nem piedade. Demorou dias.

Depois dessa missão hercúlea, um comitê formado por um encanador, seus assistentes, o zelador, um faxineiro-vigília para ficar acompanhando e contar tudo pro zelador depois e um pedreiro invadiu cada uma das unidades com problema.

Efeito 1: duas semanas de marretas, picaretas, martelos e serras elétricas full time.

Efeito 2: pó. Muito pó.

Cada apartamento foi quebrado de modo que a integração com seu vizinho era inevitável: um buraco na parede em comum, de um lado a sala do final 7, de outro a cozinha do final 5. E em volta o zelador, o faxineiro, o encanador, seus assistentes e o pedreiro, ao mesmo tempo, martelando, batendo, serrando, furando, marretando e berrando. Muito.

A gente chegava no prédio e ouvia berros e batidas. Gritos e barulhos. Um clima de resgate de sobreviventes pós-desabamento.

Depois chegava em casa e lá estava: o buraco. E a cozinha/sala do seu vizinho à vista. Em uma noite, minha sala ficou com um fog de fritura, porque, do outro lado do saco plástico que cobria o buraco-do-tamanho-de-uma-portinha, estava sendo feito o jantar. Quase pedi pra me passarem um bolinho pela abertura.

Depois de feito o quebra-quebra é hora de tapar e pintar. E em participação especial o pintor olhava pra sua parede com uma expressão de profunda infelicidade. Em meio a um longo suspiro, ele falava, pesaroso: "ah, aqui é assim?". Eu não sei aí, mas aqui é assim. Uma parede pintada. Depois de explicar que o motivo do horror é a textura que faz parte da decoração, descobriu que era a coisa mais fácil do mundo de reproduzir: massa corrida e uma vassoura fazem o trabalho.

A cara infeliz não foi embora. Perguntou sobre a cor. Que é branco. Zelador, encanador e pintor entraram em uma enorme discussão sobre que cor era aquela. Que é branco. Nenhum pôde considerar que o branco era branco. Mas era. E depois, recebi congratulações por ter acertado que cor era aquela. Que eu escolhi. E que era b-r-a-n-c-o.

Mas Deus não fica feliz quando aqui no São Vito Wannabe tudo está caminhando para uma rápida conclusão. E, com um raio de poder divinal, antes que as obras terminassem, ele explodiu um cano lá do outro bloco. Mas não só isso, ele fez cair um pedaço do teto lá do hall do elevador do térreo.

No dia seguinte, a gente escutava os berros e a quebração e, como em uma ação de experiential marketing, podia também ver uma instalação com o tema "a favela é aqui", composta por plásticos pretos, daqueles de saco de lixo, bem fedidos, estendidos como uma tenda árabe do teto do térreo, com plásticos-bolha em volta, no chão.

Como estão terminando de arrumar a favela lá de baixo, estamos aguardando os designios do Senhor em apontar onde será o próximo cano a explodir. Nada diz mais Natal do que uma obra no encanamento batendo marreta na sua orelha logo de manhã cedinho.

Você também precisa conviver com marretação natalina? Consulte a Pequena Buda e torne sua vida menos barulhenta.